Tarantino´s Inglório

Uma vez eu aprendi que para se falar mal de alguma coisa ou de alguém, primeiro teria que se fazer algum elogio. Talvez tenha sido em alguma aula de redação no colegial, com aquele negócio de argumento e contra argumento ou sei lá onde. De qualquer jeito entendi que seria algo como afagar e depois bater, beijar e depois cuspir, ou agradecer e depois mandar a merda.

Quentin Tarantino é um grande diretor. Todos os filmes de sua autoria que eu havia visto até ontem – “Cães de Aluguel (1992), Pulp Fiction(1994), Jackie Brown (1997), Kill Bill 1 (2003) e Kill Bill 2 (2004)” – como também os filmes que acabei vendo por influência desses primeiros, são muito bons.

Pra quem gosta do trabalho dele e ainda não conhece o curta brasileiro “Tarantino´s Mind”, dê uma olhada:

Ele já mostrou que além de uma grande criatividade para escrever e dirigir conhece mais que todo mundo de cinema e faz questão de colocar isso em seus filmes. Foram essas “citações”, inclusive, que me fizeram assistir à quase todos os filmes estrelados por Bruce Lee.

O que eu ainda não entendi ao assistir “Bastardos Inglórios” na noite de ontem foi: por que um cara como ele, que pode criar as histórias mais escabrosas em sua mente escolheria um tema já tão debatido no cinema como esse? Por que ficar pisando no mesmo abacate? Por que de novo os Judeus? Será que ele apenas quis concretizar uma fantasia pessoal quanto à morte de Hitler? Será que só pensou na grana?

Não sabemos nem nunca saberemos em que ele pensou, e mesmo não conhecendo 1/100 dos filmes que o inspiraram em sua metalinguagem, não acho que colocar Brad Pitt de Marlon Brando (“O Poderoso Chefão”) foi lá grande coisa. Se nesses 10 anos em que ele disse ter demorado para escrever o roteiro a intenção era bater a bilheteria de Pulp Fiction, até agora nem isso ele consegui.

A escolha do tema, contudo, em minha opinião requer alguma atenção. Não dá para ficarmos fazendo 300 mil filmes pra mostrar como os alemães nazistas foram cuzões e como os judeus sofreram com a guerra. Assim a história não caminha. Tenho certeza que grande parte dos jovens alemães com um bom senso crítico não gosta de carregar esse fardo. Sem querer de maneira alguma justificar as atrocidades cometidas, mas se vai falar de um tema tão enroscado, não se pode, por exemplo, esquecer do contexto histórico que levou Hitler ao poder. Sem contar que ficar batendo na tecla de que os Estados Unidos venceram a guerra não dá mais.

Por que então, ao invés de “recriar” a segunda guerra mundial ou falar da história judia ele não faz um filme sobre os acampamentos clandestinos na Cisjordânia? Ou mesmo sobre a guerra do Afeganistão e a guerra do Iraque?

Evidente que cabem muitas ressalvas, como quanto a trilha sonora, que continua muito boa, e quanto a liberdade cinematográfica que ele ainda consegue mostrar. Mas dessa vez não deu. O que se espera de um grande talento, mesmo que dos mais populares, é que ele faça a arte caminhar pra frente, e não fique reproduzindo com novas temáticas as mesmas coisas.

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8 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

8 Respostas para “Tarantino´s Inglório

  1. okinawabrasil

    Ei Piration, tudo bom meu querido? Que bom que vc curtiu o blog. Agora vai dar um upgrade pq eu estou indo lá pra Okinawa. Eu te contei?
    Enfim, eu já vi esse curta tb e acho muito massa. O filme novo eu ainda não vi, mas já ouvi falar bem e mal. Quando eu o vir deixo outro comentario. rs

    abs

    Victor

  2. Cecília Castro

    Pulp Fiction foi a grande obra de Tarantino. Roteiro, trilha sonora, personagens, as conversas… tudo encaixou perfeito.
    Catch up!

  3. Bruno

    Cara, curti esse seu post do Tarantino.
    Quero assistir esse filme, mesmo que seja uma merda.
    Mas acho que não vou ao cinema pra ver ele, não.
    Abraços

    • Também não é assim Jão.

      O filme é legal, só que como fã do Tarantino esperava bem mais, principalmente na escolha do tema.

      Ver no cinema é mais legal, a não ser pelo preço do ingresso que é uma vergonha. No caso, no center 3 na paulista, sai por apenas R$ 19, 00.

      força.

  4. Outro Bruno

    Você não vai acreditar, mas um dos livros que comprei naquele dia da “pizza de abobrinha, mussarela e catupiry – só que sem mussarela” traz uma justificativa muito próxima para a sua indagação sobre a temática abordada por Tarantino.

    Para constar, o livro: O que Resta de Auschwitz, de Giorgio Agamben.
    No caso específico do livro, Agamben adverte que não se trata de mais um livro sobre os horrores de Auschwitz, pois isso a historiografia já o fez demasiadamente, mas sim sobre “as dificuldades do testemunho (…), de narrar ‘o que aconteceu’ e de afirmar, ao memso tempo, que ‘o que aconteceu’ não faz parte do narrável.”

    Transportando esse raciocínio para Bastardos Inglórios, vemos que Tarantino não apenas subverte os fatos históricos – como você mesmo falou: “acho que ele sonhou que queria ver Hitler morrer tragicamente” – como também muda o escopo da cena. A história, por um instante, deixa de ser tragédia, beirando a comédia.
    Para colar uma coisa na outra, volto a dizer que o humor é a forma genuína da crítica. Hobsbawm não faria, Florestan nem sonharia..

    Ao acrescentar à estética cinzenta do holocausto seus tons pastel (pastelão?), Tarantino de certa forma narra o inenarrável.. e continua a ser o de sempre: um gênio de certa forma.. de certa forma, um dos melhores diretores.

    • Sr. Outro Bruno,

      Eu não conheço nem o livro nem o autor, mas tratar desse mesmo tema só que sob aspectos secundários ou consequentes até vai.
      Agora, eu ainda acho que o tema já está muito batido e não leva a nada ficar socando a mesma historia. Se esquecermos isso o filme é até bom.
      E tem outra, qualquer um pode aparecer com um roteiro sobre o massacre dos judeus que sempre terá um judeu rico querendo produzir o filme. E filme de judeu e de ratinho (rato que dirige, rato que cozinha, rato que fala, etc) já tem de Kilo.
      Como eu disse, por que não tem tantos filmes assim para contar o massacre palestino?

      Sobre a comédia, eu a acho sensacional, ainda mais com muito sarcasmo e ironia.
      Essa semana li varias tirinhas da Mafalda por sinal. O tal do Quino é muito bom mesmo.
      Mas tem que tomar cuidado com piadas preconceituosas que podem ter o efeito contrário.

      Obrigado pela visita. Criticos como o senhor terão sempre lugar cativo neste blog.

  5. chevalier de pas

    Tarantino só fez um filme: Pulp Fiction. Original, harmonioso, com interpretações incríveis e carismáticas. O resto é puro abastardamento dessa mesma temática trash de violência gratuita, visando, claro, o lucro advindo das assistências compostas principalmente por jovens descerebrados que curtem ver a Uma Thurman se engalfinhando com personagens rídiculos baseados na cultura dos quadrinhos, de desenhos animados e semelhantes. Quem viu Pulp Fiction viu tudo o que Tarantino tinha para dizer. O resto é masturbação mental.

    • Caro chevalier,

      Eu acho sua posicao bastante honrosa, mas nao compartilho muito da mesma.
      Eu acho que eh uma questao de estilo.
      Seria como dizer que Reggae eh tudo a mesma coisa, ou Blues eh tudo igual.
      Pra se produzir algo bom eh necessario explorar ao maximo um estilo.
      Mas evidentemente que nem por isso tudo sempre eh bom. No caso do Tarantino, eu nao gosto de toda a sua filmografia, mas me aggrada bastante a influencia dos filmes de luta de Hong Kong.
      No entanto, os Koreanos sao melhores, como por exemplo a Trilogia da Vinganca.

      valeu.

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