Malditas Férias

Acreditando viver em uma sociedade livre, damos mais valor ao trabalho do que qualquer outra coisa. Ter um dom, nascer para fazer algo, prosperar na empresa, escolher uma profissão que te de algum retorno, trabalhar com o que gosta e ser feliz no trabalho são baboseiras que escutamos e repetimos o tempo todo.

Quem precisa acordar todos os dias, querendo ou não, e ter que se dirigir ao trabalho, sabe que a aquisição das férias é um dos momentos mais felizes. Depois de trabalhar um ano inteiro, o bom e velho camarada empregador é obrigado a lhe conceder 30 dias de descanso remunerado. Não é uma beleza?

Claro que dependendo do contexto, como é o caso de muitos trabalhadores brasileiros, o simples fato de ter férias já é um grande privilégio e remete a uma pseudoestabilidade com a bendita carteira assinada. E por um lado até é mesmo, ainda mais se considerarmos a evolução das relações trabalhistas.

No entanto, é na ilusão de liberdade criada pelo período de férias que o sistema dá uma de suas melhores cartadas. Chegamos a pensar que de fato somos livres, que existe reconhecimento por parte da firma, que 30 dias serão mais que suficientes para ficar em casa e que coitado de quem não pode nem ter férias (nesse caso é verdade mesmo, esse está “fudido e mal pago”).

Contudo, chegam às férias e voilà! Liberdade! Enfim, livres.

Mas ai, não mais que de repente, quando menos você percebe, está na bosta de grana, tem que voltar a trabalhar no dia seguinte e resolver todos aqueles pepinos que deixou na gaveta antes de sair, e por último, ainda descobre que recebeu o salário adiantado e não terá nada no próximo mês. Nossa, mas que golpezinho sorrateiro.

Psicologicamente isso é muito ruim. Até mesmo para o gentil patrão que caridosamente, como quem faz um favor a um amigo, lhe concedera esses ricos dias de descanso, não pega muito bem.

Para livrar o pobre coitado dono dos meios de produção desse peso, desse fardo enorme que ninguém merece carregar, proponho dois períodos de adaptação e aclimatação: um imediatamente antes das férias e um imediatamente depois. Sendo que no primeiro período, anterior às férias (aquele em que você nem consegue trabalhar porque só pensa em sair de férias), ocorreria uma fase decrescente de horas trabalhadas, diminuindo, por exemplo, 1 hora por dia, até o dia em que você estivesse integralmente de folga; e no retorno a mesma coisa, só que crescente, aumentando aos poucos as horas trabalhadas até o regime de trabalho normal.

E o que parece na verdade ser um grande privilégio, com o tempo se tornaria  uma grande tortura, um martírio de férias. Talvez assim, quem sabe, poderíamos perceber que merda de vida é essa em que somos obrigados a trabalhar a vida toda enriquecendo uma minoria e quando já estamos velhos e acabados de tanto esforço nos deixam sair por ai capengando sem saúde e sem dinheiro.

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5 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

5 Respostas para “Malditas Férias

  1. Apoio sua idéia e digo mais, jornada universal de 5 horas não faria mal a ninguém.

    Você vai deixar saudades irmão. Vamos manter o contato. Não deixe de escrever aqui no blog.

  2. Pandora

    Gostei do texto, me lembrou uma crônica do Dahmer: http://malvados.wordpress.com/2009/09/05/monumento-a-um-jovem-monolito/ .

    Também sentirei sua falta na salona, curtia as discussões de bar.

    Pimenta, concordo que jornadas de 5 horas são ótimas, se vc não as gasta scaneando… rs

    • se hoje eu tivesse ido a salona trabalhar responderia pessoalmente, mas como estou de férias (hehe)…

      mas não pode conversar no trabalho não viu? é proibido!
      até mesmo a disposição de cada funcionário é pensada para que isso não aconteça.
      se viro pra conversar com vc fico de cara com a gerente e ainda paro de fazer meu serviço.

      férias malditas, vida bandida!

      obs: gostei do texto e do blog, tem coisa bem legal por lá.

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