Sobrevivendo de Música ou Sambando na Lama de Sapato Branco

Não foi facil tomar a decisão de deixar meu violão pra traz. Eu sabia que se eu fizesse isso seriam varios meses sem poder tocar. Eu já havia viajado outras vezes com ele, até mesmo em voos internacionais, e isso nunca tinha sido um problema. Contudo, a Air Canada é mó coco e desde do fim do ano passado não permite mais que instrumentos grandes sejam levados como bagagem de mão. Eu até consegui uma autorização especial com o escritorio da compania para que eu pudesse fazer o trecho São Paulo – Toronto, mas uma vez em Toronto eu teria que solicitar nova autorização para fazer o trecho Toronto – Vancouver. Dai, além de fazer a alfandega e despachar a bagagem de novo eu teria que pedir a autorização do violão. Era rolo demais pra 2h de conecção e acabei por desistir. Talvez se eu tivesse dado uma migué, como na verdade eu sempre fiz, e tentado embarcar sem falar nada tivesse dado certo.

Mas o negócio era que além do violão eu também estava com uma puta mala gigante (30 kg) e mais uma caixa de papelão com o colchão de ar, cobertores e meus instrumentos de percussão, fora é claro, a bagagem de mão. Não sei de onde apareceu tanta coisa. Eu até conseguiria chegar aqui com tudo isso, mas dai depois pra voltar seria outro parto. Contando ainda que eu pretendo comprar uma guitarra por aqui e nós não tinhamos muito certo um lugar para ficar, definitivamente, era coisa demais e a viola ficou.

Para o meu tipo de bilhete e voo eles permitem 2 bagagens de 32 Kg mais bagagem de mão. A mala com as roupas não dava pra deixar e entre o violão e os instrumentos de percussão, deixei o violão e despachei a caixa. Vê se pode!

Passado isso, estava eu um dia desses andando por ai, em mais uma peregrinação matinal atrás da labuta como lavador de louças, quando vi um cartazinho sobre um show com música brasileira. Eu contei com a ajuda de uma moça de instintos apurados que me fez reparar no cartaz, já que se fosse por mim eu teria passado reto desse negócio de música brasileira. Música brasileira em outro país na minha cabeça é pagode. Uns dias depois eu achei  o perfil da banda no myspace e mandei uma mensagens perguntando se eles não precisavam de um percussionista.

Eu vim pra cá com essa ideia, senão nem tinha trazido os instrumento. Porém, vida de músico nunca é facil, e como eu estava (e ainda estou) precisando de grana urgente não tinha tido tempo nem cabeça pra correr atrás disso.

Só sei que a sorte sorriu pra mim mais uma vez. A banda estava voltando de uma temporada de férias e reformulação e estavam a procura de um percussionista. Olha só rapaz, que coisa. Foi a sorte que eu não tive como lavador de louças. Para você conseguir um emprego é preciso chegar 2 segundos depois do dono do lugar dizer que precisava de uma pessoa, ou então, você perde a vaga. E isso as vezes não acontece.

A banda é muito boa e os caras são bem legais. A vocalista é brasileira, o baixista é canadense e o cara do violão é japonês. Esse japonês, aliás, toca muito. Eu acho que nem ele sabe o tanto que ele toca. O repertório também é bom e os caras só tocam bossa nova, samba e chorinho.

Fiz um dia de teste com a banda, os caras gostaram e me convidaram para continuar com eles em definitivo. Agora já posso dizer que tenho um emprego e sobrevivo de música. Quando comecei o pessoal só estava tocando em um restaurante, o mesmo do cartazinho, mas agora varios outros lugares já estão aparecendo e pelo que parece, se tudo correr bem, teremos a agenda cheia para todos os dias da semana. Não é muita grana, mas já ajuda a pagar o aluguel, além de não me tomar o dia todo. Se eu conseguir sobreviver mais dois meses assim, acabam as aulas na escola e eu estarei com mais tempo livre para correr atras do meu sonho que é lavar louças.

Como toda boa redação pós férias escolares o dificil é sempre o primeiro parágrafo. Passado ele a coisa desenrola mais facil. Eu ainda não posso dizer que desenrolou, mas já é possivel imaginar um ano mais legal por aqui. Inclusive, eu fui convidado a tocar no Festival Internacional de Jazz de Vancouver agora no meio do ano e só por isso já valeu a pena. Vai ser uma experiencia bem legal.

Parece que nossos destinos estão sempre entre o céu e o inferno. Deve vir dai a ideia para aqueles filmes idiotas que o cara fica o tempo todo pra morrer e de repente salva a terra de um ataque extraterrestre.

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6 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

6 Respostas para “Sobrevivendo de Música ou Sambando na Lama de Sapato Branco

  1. Fernanda

    Nasceu com o fiofó….virado pra lua mesmo…rsos…esse eu tenho certeza…. Dá uma penada mas sempre tem uma sorte que ninguém acredita… Cada viagem rende muitas histórias a lá pescador….eita…
    E bendito seja a caixa de papelão com todos os instrumentos… rsos…e o sangue brasileiro correndo na veia… 🙂
    Bjos

  2. Kinjo

    É isso ai rapaiz…..sorte é sempre bem vinda para aqueles que a perseguem!
    Abraço e até a proximo samba 🙂

  3. Sílvia

    tá certo que pra quem tem um grande sonho de ser lavador de louças vc mudou bem o rumo de suas pretensões ;
    mas tudo pode dar certo, imagina só quando o dono de um dos restaurantes que vcs estão tocando tiver a idéia de abrir uma vaga, vc já vai estar lá…rs rs

    Qual a data da sua apresentação no Festival ??

    bjos.

  4. Ana Maria Guabiraba

    Saudades…

  5. Ricardo Jurca

    George Benson, Chick Corea e Danilo Havana Percusion? Que início em terras estrangeiras rapaz!

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