O rato roeu a sola do sapato do rei que embroma

Passado esse momento de pseudoestrelismo, essa semana foram retomadas as buscas por uma labutagem diurna. Como as aulas praticamente chegaram ao fim e o cancelamento do acordo com a churrascaria fubazenta, o ócio está tomando conta da minha rotina. Eu não tenho problema nenhum em dizer que não trabalhar é ótimo; bom mesmo seria se não tivéssemos que.

Eu ainda tenho 2:30h de aula por dia sobre business, 5 vezes por semana, mas qualquer motivo para abandoná-la seria muito bem recebido. Aliás, assistir a essas aulas tem sido algo bem entediante e até desonroso. É como mandar um judeu beijar a cruz ou o Maradona jogar pelo Brasil. Brincadeira! Eu gosto muito da cruz, o Maradona é um cara legal, e eu adoro o capitalismo. Eu bem nem consigo imaginar o mundo sem terno e gravata, ou sem extração de mais-valia. Se quem está nervoso tem que pescar, sem capitalismo não teria gente nervosa e muito menos gente pescando. Por isso também não consigo imaginar o mundo sem a caça as baleias – dizem que o pó da cauda da baleia-cinzenta é ótimo para secar olho-de-peixe.

Se tem algo que posso dizer que fiz nessa cidade foi andar. Tá loco! Gastei um tênis novinho, daqueles que durariam 10 anos, em 5 meses. A caminhada recorde foi estabelecida no fim de abril com 14.300 metros, sendo que 1/3 desse trajeto foi feito carregando um fardo de papel higiênico de 24 rolos que eu aproveitei pra pegar no mercado porque estava na promoção. O que eu vou falar até parece mentira, mas enquanto eu atravessava a ponte a pé com o fardo de papel higiênico no ombro, por não dizer a cruz, não é que um brasileiro doido, que mora em Toronto e está pensando em vir para Vancouver, pegou meu telefone em algum lugar ai que eu fiz cadastro para trampo e me ligou para saber se era difícil encontrar trabalho aqui. Juro que nem conversei direito com o cara porque achei que era zueira de algum camarada. Inacreditável!

Na verdade eu arrumei um trabalho, mas é esporádico e temporário. Para poder montar sanduíches de porco no estádio de futebol americano durante os jogos do BC Lions, quando este joga em casa, tive que passar por todas as etapas daquelas estúpidas seleções de emprego. Teve dinâmica de grupo, quebra-cabeça, ciranda, pega-pega, interação com os coleguinhas, entrevista pessoal para falar das fraquezas e qualidades, cerimonial para a entrega dos documentos e assinatura do contrato e tudo mais. O desafio nesse caso não foi parecer o cara certo para a vaga certa, como me ensinaram nas aulas de business, mas sim conseguir passar por tudo isso sem os caras descobrirem meu inglês macarrônico. Com a ajuda da rapariga do rostinho pintado, decorei varias frases de efeito e fui. Eu sou a prova que essas porcarias não funcionam.

O trabalho até que foi sussa. Carninha no pãozinho. Tetinha. Mamão com açúcar. O foda mesmo foi entender os caras falando ali no corre-corre. Esse é mais um problema das aulas de inglês. Você sai de lá achando que todo mundo fala igual a sua professora ou igual ao seus amigos estrangeiros. Nã nã não fião. A realidade é dura e crua. O problema do idioma está no seu vocabulário e na boa vontade do falante em ser bem entendido. Se não tem vocabulário peida na farofa e chora mano. Eu quis ligar pra minha mãe na hora em que a supervisora gritou lá do outro lado do contêiner em meio à multidão que se aglomerava em frente sedenta por seus lanchinhos, algo que em português seria mais ou menos assim:

“- Danilo, pega lá as escumadeiras que estão perto dos engradados de salpicão, junto aos vasilhames, atrás do botijão de gás, debaixo da prateleira com as bandejas de picadinho de porco pré-cozido. Aproveita e na volta passa na câmara refrigerada e traz dois fardos de frango em tiras desidratado e coloca ao lado da estufa.”

Nesta hora eu queria ter o poder do download lingüístico para puxar o dicionário inteiro e conseguir o segredo das ovelhas, como fez sagazmente “Baby, o porquinho atrapalhado”:

“Vá carneiro ovelha.

Vá carneiro ovelha.

A tua raça, a tua lã o teu clã serás fiel.

Ovelhas fiéis.

Vá carneiro ovelha”.

É um bom retrato dessa experiência. Eu era um porquinho, montando lanches com a carne morta de outros porquinhos, em meio aquelas ovelhinhas todas, só que sem conhecer seu código sagrado.

Vendeu sanduíche a dar com pau. Foi a inauguração do estádio dos caras, se é que se pode chamar aquela arquibancada metálica de estádio, mas parece que eles perderam o jogo.

Falando em jogo, amanhã tem jogo com os orapois. Amanha por que aqui ainda é ontem  pro Brasil.

P.S. (adendo – 25/Jun): eu me esqueci de colocar no texto, mas no dia da perambulação citada eu encontrei o truta Raul para testarmos umas guitarras lá na loja da Granville. O cara não só é a prova viva de que eu carregava o fardo de rolos, como que ficou me esperando na calçada cuidando do fardo pra mim enquanto eu parei para uma entrevista de emprego em um restaurante fast food de comida oriental(?) que não gostou de mim.

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4 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

4 Respostas para “O rato roeu a sola do sapato do rei que embroma

  1. Joao Renato

    Caro Danilo. Grande Pessoa

    Agora troquei de papel com o “Pimentinha”. Eu escrevo e ele “espiona”. Grande Pimentinha.

    Eu acredito que todos temos um heteronimo. Mas fico com a impressao de que voce vive um seu. Te invejo.

    Grande Abraço

    • Danilo Havana

      grande Jonny
      é verdade cara, o Pimentinha é um cara sensacional!
      fora de serie mesmo.

      e eu acho que vc esta certo quanto aos heteronimos.
      na verdade eu diria que temos varios, mais de um. talvez eles sejam até nossos sonhos.
      é muito bom poder viver alguns deles.
      mas pensando assim, dá pra dizer que é muito bom poder não ser vc mesmo; e passar a vida correndo atras de nossos sonhos é correr atras do não-vc mesmo.
      que viagem mano!

  2. Uma

    Essa rapariga do rostinho pintado…

  3. Fernanda

    Após ler sobre a sua saga dos 24 rolos de papel higiênico… sai da net para cumprir com o dito dever de buscar pela dignificação da minha pessoa após o jogo do Brasil nessa sexta feira, e após uma semana que me deixou só no pó, que ainda não acabara…, fui trabalhar novamente… No entanto, fui fazer aquilo que não planejei em nenhum momento da vida…lecionar uma aula de história… (talvez nesse momento o termo “lecionar” não possa fazer jus ao que pratico quando exerço tal ato, seria como desonrar aos verdadeiros e saudosos mestres de história que tive no passado). Mesmo que a aula seja boa, que o aluno aprenda, não me sinto a vontade com tal prática… Porém, na busca da “dignificação”, ou já poderíamos traduzir na popular “bufunfa”, nos sujeitamos a tais situações…diante da ausência de outras oportunidade…quiça melhores ou sonhadas…

    No caminho do lavoro percebi que meu cérebro continuou maquinando sobre os comentários dos heterônimos ao olhar três crianças com uma bola na mão descendo uma rua a caminho do parque aqui da minha cidade… Talvez nessa fase, da saudosa infância, seja o tempo que iniciamos a criação de nossos principais heterônimos, que serão ajustados na vida adulta pelas situações cotidianas… No entanto ao mesmo tempo senti que cometi “atos falhos” ao criar meus heterônimos talvez…

    É Dan, vida de “baconzitos” naum é mole não…. acaba que sempre estamos precisando do “segredo das ovelhas”…

    Bjos grandes e abraço forte de saudades

    Obs: Ah…sabe a minha aula de história, se não bastasse, o que acha de ter um pai ao lado assistindo a aula?!?!?!…..é….fazemos tudo na busca da “dignificação”…

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