Golpeando el Pollo

Dizem por ai pra você não procurar muito que pode acabar achando. Eu perdi a conta de quantos currículos entreguei ou mesmo quantos enviei por email. Fácil fácil imprimi mais de 150 e mandei mais de 100 pela internet ao longo desses 5 meses e pouco em Vancouver.

O Canadá possui um esquema de trabalho que não é dos mais doces, derrubando assim mais uma lenda canadense. Por aqui se paga um salário mínimo por hora para quase toda função não qualificada. Então se você trabalha como faxineiro, vendedor, atendente, ajudante de cozinha, jardineiro, etc, não importa, provavelmente pagarão a você o mínimo de $ 8,50 a hora. Não existe por aqui um teto mínimo mensal diferente para diferentes funções que não exigem ensino superior como acontece no Brasil. Além disso, a jornada de trabalho aqui é bem maluca e se você tiver sorte e for contemplado com uma carga horária semanal generosa, isso acaba por tomar toda sua semana. Alias as coisas aqui também são bem semanais. Toda semana, geralmente as sextas-feiras, seu gerente publica a escala de trabalho da próxima semana. Assim você pode trabalhar um dia das 9h as 16h e no outro das 17h as 23h. É uma zona. A lembrar que não tem essa de sábado e domingo. Praticamente qualquer lugar aqui funciona como shopping. Provavelmente no ambiente empresarial deva ser diferente, mas não conheço, não quero e nem vou conhecer.

Também escutei bastante antes de vir, inclusive até de uma canadense, hoje dada como uma desvirtuada, doida varrida, que canadense não trabalha. Eu nunca acreditei nisso e uma vez aqui comprovei que estava certo. Dizer isso é quase o mesmo que dizer que brasileiro não trabalha – eu disse quase porque brasileiro trabalha mais. Todos os canadenses que conhecemos, inclusive aqueles mais legítimos, vestidos com peles de urso, barba vermelha e cortando arvores por ai, trabalham e trabalham bastante. Viajar pelo Canadá e Europa é caro até pra eles, mas o que acontece é que a moeda vale mais, e muitos, com quem temos contato, fazem a festa por ai nos países mais pobres.

Viver de música é sempre muito difícil em qualquer lugar do mundo. Um dos problemas, se você não é o Ringo Starr, é que a coisa é muito inconstante, diferentemente das contas que você tem para pagar. Tem semanas que se trabalha bastante e outras nem tanto. Por isso também a história de um trabalho “fixo”. Com a músicas se sobrevive, mas as vezes só isso não é suficiente. O que cagou um pouco foi ficar com o turno tarde-noite que está atrapalhando bastante minha carreira de tocador de chocalhos internacional.

Já o Festival de Jazz, antes que eu me esqueça, foi fantástico, principalmente a apresentação com o Yuji Trio. Tocamos em uma ilha, dentro de uma fábrica de cerveja lotada. Simplesmente sensacional!

Mas continuando falando de coisa ruim, o francesinho Foucault até que estava certo ao dizer que o trabalho, mais do que qualquer outra coisa, limita você fisicamente. Mais do que tentar enjaular suas idéias, o trabalho impõe barreiras energéticas ao seu corpo. Dentre todos os desafios de um pensamento revolucionários, este com certeza é um dos grandes. É mesmo muito difícil conseguir pensar em alguma coisa depois de um longo dia de trabalho. Contudo, a realidade é tão descarada e a exploração é tão fácil de ser vista, que torna a relação explorador- explorado uma bomba relógio.

É fácil você falar a um colega de trabalho o que é ser o dono dos meios de produção e como isso dá a aquela pessoa o direito de lhe obrigar a trabalhar em seu lugar e ainda dar quase todo o dinheiro a ela. É simples, não precisa nem complicar: por exemplo, a chinesa de Hong Kong, dona da rede de restaurantes mexicana em Vancouver, paga 8 dólares a hora para seus funcionários. Um burrito completo custa também ao cliente 8 dólares (olha que coincidência!). Por dia trabalham aproximadamente 5 funcionários revezando turnos e horas. Para conseguir honrar suas obrigações, essa adorável burguesa tem um giro médio de 500 burritos por dia – 4.000 dolares por dia, 28.000 por semana,  120.000 por mes, 1.440.000 por ano/ por loja / só de burrito. Não precisa nem falar mais nada. O lucro é absurdo. A única hora em que vemos a dona é quando ela aparece com roupinha de ginástica para ver se tem alguém comendo escondido ou colocando muita guacamole no burrito. Apesar do sorriso simpático, ela parece não se importar muito ao ver seus funcionários trabalhando 12, 13, 14 horas por dia sem intervalo.

E pra aqueles que ainda se lembram e por ventura tenham perguntado a um outro alguém “como será que anda aquele rapaz que estava sempre de roupa bonita, carro de colecionador, pagando almoço com valetik; que trabalhava a 5 minutos de casa e sentava em sua própria mesa lá no escritório com ar condicionado, perto da janela de frente pro jardim, com seu próprio computador de ultima geração, cafezinho, pãozinho e bolinho na cozinha sempre que quisesse; que recebia seu salário todos os meses, participação nos lucros, com direito a vale transporte, licença, falta abonada e férias remuneradas”, eu facilito sua vida e descrevo a doce realidade: ele agora está mais gordo, branco, ganha por hora, limpa, cozinha, serve e cobra os clientes, tem princípios de calvície, foi chantageado a tirar barba, tem dores nos pés de ficar em pé o dia todo, está com os braços queimados de encostar na chapa do restaurante, não faz horário de almoço, não ganha hora extra, não tem direitos trabalhistas algum e fala português pior do que já falava*.

Uma última coisa sobre o trabalho (nesse momento me vem a cabeça o comentário repressor do Marcão quanto aos textos longos), apesar de tudo, mesmo eles sabendo disso e se aproveitando da situação aplicando o já comentado método morde-assopra, é mesmo uma sensação muito boa a de quando você pisa na rua voltando para casa depois de um dia de trabalho. São minutos de liberdade. O suor parece ter sido trocado por sua dignidade. E isso não se sente no ar condicionado. A luz do computador nunca será como o calor do forno ou como o sol batendo no lombo do caboclo. Apesar de tudo, hoje me sinto muito mais combustível queimando do que peça funcionando. Não faz sentido nenhum, mas me sinto menos parte do sistema.

É muito bom poder viver coisas novas, independente de qual seja. É muito ruim viver pensando que fará aquilo pra sempre, especialmente quando não se gosta do que faz. É uma pena que não tenhamos coragem de viver mais, experimentar mais. Nós perdemos muito quando não nos propomos a fazer algo diferente. Deixamos de sentir e pensar coisas diferentes quando não nos deixamos viver algo novo. Tem coisa que não se aprende na Universidade. Na verdade, quase nada se aprende nela. Eu me sinto muito feliz quando sento por 5 minutos pra conversar com minha avó, faixa vermelha em conhecimento cotidianos,  e ela me humilha, regassa, apavora qualquer professor mesmo sem nunca ter estudado.

Escrevo porque dá vontade e reclamo porque precisa. Se você elogia muito a vida ela fica se achando. E não se acostumem mal, isso aqui não é um diário virtual.

* O principio de calvície, a gastrite nervosa, a indisposição e a fadiga sem explicação, as dores nas costas, nos joelhos, nos pulsos e o cansaço das vistas são souvenirs da suposta vida mansa do passado.

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14 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

14 Respostas para “Golpeando el Pollo

  1. Detalhe que o canadense depois de um ano de trabalho, dependendo do chefe, ganha 1 semana de férias – se for um bom negociador.
    Trabalhador aqui é escravo. E essa regra vale para o mundo corporativo daqui também.
    Ai, ai, ai esse primeiro mundo.

  2. Alex

    Que medo do Canadá.

    • Danilo Havana

      hehe
      as vezes dá medo mesmo jão.
      mas é um lugar legal sim.
      só não é o paraiso perdido na terra que todos dizem por ai.
      força

  3. Rosana

    Adorei a materia Dani, eu sou feliz neh??? Eu jah sabia, mas agora comprovei….sorry. Mas sabe de uma coisa, eu admiro certas coisas no primeiro mundo, o que me leva a pensar que eles nao sao primeiro mundo por acaso, coisas como: bancos abrem aos sabados e, eu erguntei a gerente, nossa..porque??? Ela me respondeu: ” Porque 90% dos nossos clientes precisam dos nossos servicos aos sabados porque trabalham a semana toda”, imagina se no Brasil eles pensassem assim…chegariamos rapinho ao primeiro mundo…..mas ao contrario neh, quando o ano uniciava eu jah estava procurando o calendario de feriados e fazendo as contas das pontes que eu podia ter no ano… aqui nao tem ponte viu….feriao na quinta todo mundo trabalha na sexta sem reclamar….kkkkk … bjus

  4. Danilo Havana

    Putz Rô, engraçado vc dar bem o exemplo do banco. Eu tenho alguma experiencia nisso ai tb.
    Não sei não, mas acho que não é bem assim.
    As demanda são muito diferentes. No brasil, por exemplo, a demanda por crédito é muito maior, o que torna o atendimento muito mais complicado e demorado. Eu achei inclusive o sistema bancário aqui muito atrasado, o atendimento demorado, além de poucas agencias e caixas eletronicos.
    Os salários bancários tb são mais baixos no brasil, e até mesmo nos bancos de economia mista, os funcionários na maioria das vezes trabalhan muito e não ganham hora extra.
    O que acontece muito com a gente e ver a coisa pela ótica do cliente, como se o cliente fosse o Rei.
    Se o banco ficasse aberto 24 horas por dia ia ficar lotado até de madrugada.
    Se a gente ver pela ótica do trabalhador, o banco tem mais é que fechar de fim de semana e dar folga para os funcionários que já deram duro durante toda a semana. Bancos possuem lucros astronomicos.
    Mas pelo seu exemplo vc até reforçou o que eu vinha tentando dizer quanto ao trabalho no Canada. Bancário trabalha até de sabado aqui.
    e contar os feriados é a melhor parte do ano novo !!!!!!!!!!!!

  5. Acho que já sei o que vou fazer com minhas reservas: abrir uma lojinha de feijoada enrolada em tortilha em Vancouver.

  6. Everas

    esse final ai foi meio mano brown!
    só o trabalho liberta,
    estava escrito em auschwitz

    • Danilo Havana

      e não é truta?
      verme é verme, e eu ainda lavo o rosto nas aguas sagradas da pia.
      o trabalho pode não libertar o homem, mas que embrutece a criatura isso é verdade.

  7. michelevercosa

    Esse texte me fez sentir muitas coisas… Uma delas é vontade de comer burrito com muito guacamole… :c).

    Felicidade é a reação química mais louca de entender – vem do fato de ganhar um milhão na loteria, ou do simples fato de tomar um banho quente numa noite fria.

  8. tainara

    Trabalhando em restaurante?? No “Peking restaurant” onde eu trabalhei nos eua era o mesmo esquema, mas como eu fui garçonete, nos dias que trabalhava mais ganhava mais gorjeta. Meu salário, aliás, era os 10-15% da mesa que servia, pois o salário mínimo por hora nesse emprego eram míseros 2,15 dólares, que foram tudo pro governo na forma de imposto.
    Só sei que no terceiro mês já não aguentava mais e sentia saudade do nosso subdesenvolvido país.

    • Danilo Havana

      que isso? como assim $ 2,15? o loco …. se vc preferia ser estagiaria lá naquele lugar lá das tias boleiras, eu posso imaginar como era nos EUA.

  9. marcos

    Salve!
    Cara, fazia um tempo que eu andava longe de escritórios, mas agora estou aqui em Porto Alegre no famigerado regime: 10 horas de trabalho por 40 minutos de alimentação, banho de sol, descanso, reflexão e todos os etceteras, tipo ir ao médico ou ao banco. Mas imagino que a vida de burriteiro também não seja fácil…

    E o comentário não foi repressor, foi elogioso…tanto que leio todos os textos integralmente!

    logo mando novas tiras!

    Abraço

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