Enrolando o Burro

Eu tenho certeza que algumas pessoas devem estar pensando: “aquele menino lá, depois que virou burriteiro mudou completamente, não fala mais com a gente, não olha mais na cara da gente, não cumprimenta direito e nunca voltou para ajudar o pessoal aqui da comunidade; aquele malagradecido”.

Para que o pessoal não fique pensando mal de mim e não fique falando pelas costas, eu resolvi ajudar publicando alguma coisa que pudesse ajudar a alguém que por ventura queira ser um burriteiro em águas internacional. Com isso, eu espero que aqueles que sonham em ingressar nessa carreira ao menos consigam chegar mais preparados em caso de uma eventual entrevista de emprego – dicas mais direcionadas de como se portar em uma entrevista de emprego (aperto de mão, olho nos olhos, trajes adequados ou como fazer de suas fraquezas algo positivo, etc) podem ser encontradas em escolas especializadas nesse tipo serviço.

A arte milenar de fazer burritos também sentiu os efeitos da globarbarização e com isso teve sua rotina bastante alterada. Atualmente, a abordagem ao cliente é feita de maneira bem diferente, muito mais dinâmica, e exige do burriteiro não só uma atitude sinergética , como que  seja alguém versatil, objetivo e com grande capacidade de síntese.

A superação do sistema de montagem Fordista pelo modelo Toyotista também pode ser vista no processo de enrolação do burrito. Os empregados que antes exerciam uma única só função, repetitivamente ao longo de toda a jornada, hoje são obrigados a exercer mais de uma, e ao mesmo tempo em que recebem o pedido do cliente, preparam os ingredientes, lavam os materiais utilizados na produção, limpam o estabelecimento, montam o burrito, embalam pra viagem, fazem a cobrança e entregam o produto. Ou como diria meu camarada Fernandongas: “descola o escanteio, cobra e corre pra área para cabecear”.

Desconsiderando algumas variações de ingredientes oriundas dos diferentes paladares ao redor do mundo, assim como os procedimentos secundários de cozimento desses ingredientes e as tarefas de limpeza, o processo de enrolagem do burrito, em si, pode ser transcrito em 15 perguntas fundamentais:

1 – How are you?

2 – Can I help you?

3 – Tomato or whole wheat?

4 – Rice and beans?

5 – Chicken, beef or shrimp?

6 – Tomato sauce?

7 – Mild or spicy?

8 – Sour cream and corn?

9 – Onions and cilantro?

10 – Lettuce and lime?

11 – Guacamole or cheese extra?

12 – For here or to go?

13 – Any drink?

14 – Do you need a bag?

15 – Do you need your receipt?

É com essa linguagem rebuscada, essa palavreado refinado, esse street english com tamanha versatilidade lingüística, com esse vocabulário vasto, e por que não dizer certa malevolência oral, que vive metade da população da cidade de Vancouver e 90% dos brasileiros que viajam para cá. O que diferencia uns dos outros é o menu do restaurante em que ele trabalha ou o estoque da loja de roupas.

Sem contar aqueles que vem pra cá ouvir pagode, agora fica muito mais fácil entender como as pessoas gastam fortunas, passam meses em outro país e mesmo assim voltam falando o idioma bem marromenos, com aquele ingreizinho safado, pior que o do Sergio Malandro. Claro que existem exceções, e nesse caso eu ousaria em apontar três delas: a facilidade – aqueles que tem muita facilidade em aprender inglês ou mesmo outros idiomas; a escola de línguas – aqueles em que o pai pagou 15 anos de escola particular de idiomas e o nego só aproveitou porque gostava do idioma ensinado; e o fã do Guns n’ Roses – aquele que aprendeu inglês traduzindo lindas canções.

Já há algum tempo eu tenho firme nas idéias que viver é a arte de dar migués. E buscando lógica nesse pensamento posso encontrar muito que me de respaldo. No caso de Vancouver, a cidade é um grande achado e devo isso aos burritos que enrolo. Por fim, concluir cientificamente que ao menos metade da população não faz mais do que dar migués, é um tanto que esclarecedor.

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1 comentário

Arquivado em de tudo um pouco

Uma resposta para “Enrolando o Burro

  1. Preciso aprender mais sobre a “arte de dar migués”…não sou muito boa nisso…

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