Cerote de chinês

A pouco, quando estava no porão do restaurante mexicano, me peguei a pensar nos lugares exóticos ou mesmo nas coisas inusitadas em que andei me metendo.  A ver pelos três últimos dias, por exemplo: estive sozinho dentro de um freezer fechado contando sacos de comida na cidade de North Vancouver; caminhei sobre os diques do delta do rio Frase; toquei com um trio de jazz em um jardim comunitário da cidade de Richmond em um churrasco organizado pela associação de bairro; passei no drive thru e peguei um combo; estive em uma distribuidora de peças plásticas na cidade do Delta; por duas vezes visitei o galpão de uma fábrica de motores industriais em Burnaby; fiquei parado em um congestionamento na saída da Lions Gate já dentro do centenário Stanley Parque; conversei sobre gírias salvadorenhas com amigos latinos no setor de cargas de uma fábrica de comidas também em Richmond (conversei também com um brasileiro dentro da UBC sobre verrugas e olho de peixe, assunto que muito me intriga); passei algumas horas fechado em um quarto escuro de um hospital durante a madrugada; e por fim, nadei no gélido oceano pacifico e joguei frisbee na praça com uma moça bonita.

Sempre reflito sobre as coisas que eu pensava que aconteceriam e as coisas que realmente aconteceram, principalmente no quesito viajar para outros lugares a partir de Vancouver. Mas também me pergunto o que de fato seria viajar. Na verdade, as coisas boas de se fazer são as que não podem ser colocadas no currículo. Quando te convidarem a fazer alguma coisa, primeiro você pare e pense se vai poder colocar aquilo no currículo. Se a resposta for Não, então existe grande possibilidade de sem um negócio massa. Mas se a resposta for Sim, eu posso por no currículo depois, você pode até fazer, mas não vai te servir de nada na vida. É lixo!

Foi pensando nisso que há duas semanas eu disse Sim ao receber uma proposta de promoção de trabalho da minha querida tenda de burritos, e isso explicaria tantas peregrinações, perguntando se eu gostaria de ascender de posto e passar a ser o motorista/entregador, ganhando assim 1 dolar a mais por hora. Na verdade eles não tiveram opção já que eu era o único que tinha carteira internacional de habilitação. Aliás, conheço um amigo que se trabalhasse de motorista colocaria no currículo: articulator of a logistical network at a international company of mexican food production.

Quantos semáforos possui esse pacato cruzamento?

Provando mais uma vez que nossos tempos ficarão conhecidos na história como o tempo da sociedade migué, minha promoção veio a cargo de muito trabalho. Eu só tenho a agradecer ao fantástico curso de business por seus preciosos ensinamentos, por aqui citar, preocupar-se com a aparência mais do que tudo na vida, falar somente o necessário e nunca dizer a palavra Não, chegar antes e sair depois de todo mundo sem que te paguem por isso, pensar sempre em você antes de todo o mundo, e nunca, mas nunca, pedir um aumento.

De um jeito ou de outro, fora a canseira de carregar caixas e sacos o dia todo e o péssimo salário, ao menos nessas primeiras semanas, está sendo bem divertida a vida de entregador. Se contar que estou conhecendo toda a cidade e região, que fico roletando por ai escutando rádio, que não tenho que repetir as mesmas 15 perguntas mil vezes ao dia, não asso em frente as maquinas de frango e não trabalho mais com a “implacável encarregada coração de pedra”, acho que foi uma ótima promoção. Provavelmente não será muito bom para meu progresso com o idioma inglês, pero, o espanholês vai que vai. Outro ponto é que se começar a trabalhar no Burrito tinha atrapalhado bastante a música, agora a coisa mudou de novo, e com jornada diurna tenho as noites livres outra vez.

O trabalho como motorista/entregador consiste basicamente em distribuir entre as lojas da rede o que nelas são produzidos. Por exemplo, as salsas somente são preparadas na loja de North Vancouver e por isso precisam ser levadas até as demais. E assim é com todos os produtos. Isso é algo bem positivo, não só para o bolso da chinesa que ganha economizando em escala, mas também aos clientes que recebem os produtos mais frescos. Praticamente tudo é produzido pelo próprio restaurante, com exceção das bebidas, embalagens, produtos de limpeza e os ingredientes utilizados para a produção, como sal, açúcar e tal. Fora isso tem que comprar uma coisa ali, levar alguém acula,  deixar no sei o que não sei onde e por ai vai.

Só não foi muito legal dar tchau ao antigo motorista, um simpático chinês que trabalhava há mais de 5 anos para o restaurante. Em uma conversa muito difícil, não só pela situação, mas pelo pobre camarada só falar mandarim e entender apenas algumas palavras em inglês e outras em espanhol, soubemos quanto pagavam a mim e a ele, passando a ser conhecido que a idade mais avançada e todos os anos de dedicação só lhe rendiam 50 centavos a mais por hora em relação ao que agora me pagam. O restaurante usou de táticas grosseiras, mas bem comuns, para que ele pedisse demissão. Quando decidiram que não o queriam mais, passaram a tornar sua vida ainda mais difícil e disseminaram falsos boatos junto aos demais funcionários.

Em torço para que ele encontre algo melhor e fico com a lembrança de suas últimas palavras: “Pinche gerente! Pinche gerente!

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7 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco, Retratos

7 Respostas para “Cerote de chinês

  1. tainara

    Ae Danilo! Parabens pela promoção!! hehehehehehe

  2. Everas

    Quanto tempo você ficou parado naquele cruzamento cheio de “faról”?

  3. Rosana Inacio

    Adorei Dani, eh muito verdade tudo isso, apesar de estar trabalhando no meu ramo de eletronica, o trabalho que faco eh o que nehum engenheiro Canadence quer fazer, mas eu faco com muita dedicacao.Mas sabe que tenho a mesma sensacao…tipo: No Brasil eu trabalhava de roupa social, unhas feitas, e neste trabalho nao posso nem mesmo usar meus aneis e brincos muitos grandes, qto as roupas, as vezes nao sei o que vestir, porque o lugar eh sujo (producao) e soh tem homem (isso sempre foi assim, nao tem muitas engenheiras por aih neh) entao preciso de roupas surradas e decentes…foda mas estou me divertindo, somos um grupo de 5 um espanhol eng mecanico, um coreano engenheiro de software , eu brasileira engenheira eletronica, e 2 canadences que fazem servicos gerais e ajuda a gente.
    Vamos bbmorar, temos muita historias pra contar e rirmos muiiitos….bjus

  4. Danilo Havana

    Tainara … é nois.

    Everas, na verdade esse ai eu passei andando depois de um belo passeio no Parque Queen Elizabeth. O cruzamento vc confere ai:http://bit.ly/9OtVmg

    e Ro, vc é demais! virou a musa dos imigrantes “morto de fome”depois que arrumou um trabalho na área.

  5. Ana

    Danilo,
    Tenho um amigo que está trabalhando alienação no trabalho com os alunos e ele queria utilizar o seu blog nas aulas.
    Tudo bem? Alguma recomendação.
    Beijão.
    Saudades.
    Ana

    • Danilo Havana

      Claro Ana! Com muito prazer.
      E eu vou ser quem? o alienado? hehehe
      Sabe que uma das coisas que mais me deixa intrigado é ver a forma como os proprios trabalhadores se vem como inimigos, concorrentes.
      O patrão mexe com a vaidade de seus empregados de uma tal maneira que um começa a querer mais que o outro.
      Verticalizar as funções de trabalho é uma das grandes sacadas para a coisa toda funcionar.
      beijos

      • Ana Maria

        Alienado? Claro que não Danilo. O trabalho que é alienante e não a gente. E isto não acontece só com os enroladores de burritos. Estou fazendo o curso do estado para ingressar no novo concurso e é medonho… Cada vez menos refletimos sobre os procedimentos e os objetivos do nosso trabalho.

        Beijão

        Obrigada.

        Ana

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