Second Impressions ou Notas de Verão sobre Impressões de Inverno

O bom de ficar muito tempo sem escrever é que quando você para pra fazer tem coisa demais na cabeça. Isto, claro, supondo-se que se não tinha tempo para escrever é porque estava ocupado fazendo outras coisas ou mesmo parado pensando em bobeira. No meu caso, outras coisas nessas últimas semanas se resumem basicamente em trabalhar.

O trabalho é mais que um detalhe em uma sociedade onde o consumo dita quase todas as regras.  Não é a toa que trabalho é o assunto freguês aqui neste blog. Mas é também o fato de ter ou não trabalho que vai determinar se você pode ou não se dar ao luxo de se dizer inserido nessa sociedade ou não. Como um lumpem corredor de maratona, é triste dizer que o fato de agora poder ser explorado, por vezes mais de 60 horas semanais, me deu também o direito de consumir e com isso ver a cidade diferente. Digo isso por que, psicologicamente, como já disse anteriormente, a pior coisa de não ter dinheiro é que você acaba que só pensa nele. As dificuldades não esperadas para encontrar trabalho no começo da viagem mudaram não só o fato como desfrutávamos os espaços, como também mudaram o curso dessa viagem e das seguintes que já estavam no gatilho.

Seria também injusto dizer que a cidade de Vancouver só pode ser degustada com dinheiro. Isso não é verdade.  Contudo também não é o caso de se negar que o dinheiro impõe fortes limites, notadamente nesse contexto, falado por quem se propôs a viver outra cultura e não só a viajar. No mais, quando o assunto é “locais de uso comum não tarifados”, a cidade de Vancouver possui bom parques, boas bibliotecas, praias muito legais, além de ruas e avenidas muito bem arborizadas e agradáveis.

São as pessoas que fazem dos espaços espaços dinamicos. Uma praça vazia é só uma praça vazia. E isso é o que mais sinto falta aqui. Definitivamente falta à cidade de Vancouver alguns pontos quentes, onde as pessoas possam se aglomerar. Tudo é muito igual, muito planejado, muito quadrado. Lugares diferentes, como um Largo, um Terminal, um calçadão, cruzamentos confusos, rua juntando com rua; e por que não uma Igreja velha. Falta um centro de verdade; falta uma baixada; faltam círculos e lugares redondos; faltam monumentos, prédios velhos e prédios esquisitos. Sei lá, seria como a cidade de São Paulo somente com seus bairros e a Avenida Paulista, sem Ceagesp, sem centro, sem o Mercadão, sem Teodoro Sampaio, sem Largo do Arouche, sem nada.

Não é que eu esteja defendendo a falta de planejamento e nem tão pouco exaltando cidades problemáticas como São Paulo. Planejar é uma coisa, bater a peneira na areia é outra completamente diferente. Eu citaria como um bom exemplo de cidade planejada a cidade de Barcelona juntamente com seu antigo centro gótico.

Foi isso que, naqueles tempos, me fez ver a cidade normal demais. Digo fez, mas na verdade ainda faz muita falta. O fato é que mesmo sendo essa minha idéia, viajar com tempo para poder ver um lugar novo com calma, agora é o momento de assumir que me faltou também tranqüilidade para esperar que a cidade se mostrasse um pouco mais como ela é .  Mesmo tentando fugir da cruz de turista, não pude vencer a euforia, os preconceitos e as expectativas, e esperando por outra coisa me deixei frustar.

Quando isso se passa, o mínimo que acontece é você se munir ainda mais de suas pré-idéias, fechar seu coração, e assim deixar de aproveitar como realmente deveria. Não sei se é pra tanto, mas escrevo isso mais para registrar meu vacilo ideológico.

O fato é que hoje consigo ver muitas outras coisas que antes não via e com isso olhar a cidade em uma perspectiva um pouco diferente e bem mais doce. A simples vivência e interesse por entender a cidade, somados aos shows por ai e a rotina de motorista, me permitem emitir opiniões com mais predicados que há 8 meses atrás , sem deixar, contudo, de serem meras impressões.

As coisas foram ficando mais fáceis na medida em que o hemisfério norte esquentava. Foi o tempo das coisas se acertarem bem, as dificuldades iniciais passarem, que acabou o inverno, passou a primavera e o verão chegou. Do inverno ficaram lembranças escuras, frias, molhadas e curiosas; da primavera lembranças da escola e dos amigos; e do verão que se acaba, só me vem a cabeça o Sol.

Hoje ele já nasce depois das 6h e se põe antes das 20h. Tiveram dias ai que o trem ficou aceso desde antes das 5h até quase 23h. Dá pra ver nitidamente que a vegetação decídua já ultrapassou seu ápice de verdume. As árvores ainda estão bem encorpadas, mas já se vê sinais de descoloração. Na verdade o termo mais correto seria coloração. O outono que começa no hemisfério norte, nas faixas temperadas, é sem dúvida umas das coisas mais lindas do mundo. Assim, mesmo que com Sol e a temporada de chuvas ainda só começando, nadar no mar já se tornou algo bem hardcore.

(Isso não tem nada que ver com determinismo geográfico, não me vá confundir bola de futebol com cereja de bolo. A mistura do renomado senso comum com o já superado empirismo lógico deu no Empirismo Comum. Ai sim!)

Mas bem, eu ia falando de consumir a cidade.

Das coisas que mais me alegram em Vancouver é o fato daqui ser um lugar feito de estrangeiros (a cidade parece um zoológico a céu aberto – acho que já deram o nome a isso de safári. Na universidade chamariam de um mosaico cultural. Eu prefiro chamar de zoológico por estarem todos mortos e não passarem de almas penadas). Pra quem se interessa, o simples fato de escutar rádio já revela o quão interessante é. São inúmeros canais de língua francesa, muitos em espanhol, alguns em árabe, japonês, russo, chinês e até em inglês. Aliás,  tem um programa de rádio latino muito bom pelas manhãs na 96,1 Fm (Latino Soy). Fico sabendo de tudo que acontece lá na mina chilena. Tem até um camarada ai russo que trabalha em um programa de radio direcionado a comunidade russa de Vancouver. Já a televisão daqui consegue ser pior que no Brasil. Os caras são muito ruins. Nem programa de calouros infantis do Raul Gil tem.

Carregado por essas comunidades estrangeiras, a cidade também possui muitos restaurantes,  festivais internacionais e boas lojas de discos.

Dos festivais, que eu me lembre, já rolou esse ano até aqui: festival de cultura japonesa, festival de cultura croata, festival de cultura mexicana, festival de cultura latina, festival de cultura braZileira (má bem meia boqueta por sinal), vários festivais de cinema, como o festival latino e o brasileiro, sem contar as olimpíadas de inverno e o festival internacional de jazz. Eu não consegui ir a todos, mas consegui dar um grauzinho em quase todos, com o pesar de honra que toquei no festival croata, no Internacional de Jazz, no de cultura japonesa e no brazilfest. Isso tudo ai fora os milhares que eu nem sonho que aconteceram mas que com certeza aconteceram.

Dos restaurantes parece até zoeira, mas eu nunca vi algo parecido. Não é que tem um ali e outro aqui de cada país. A cidade está repleta de restaurantes de comida típica. Pensando bem nem tem restaurante normal, que seria o de comida canadense. É só restaurante de país. Só aqui pertinho de casa tem restaurante Tailandês, Grego, Italiano, Mexicano, Turco, Japonês, Chinês, Mongol, Coreano, Vietnamita e Indiano. Não to brincando. É assim mesmo. Quem já viu sabe.

Quando eu me referi a consumir a cidade e não só a freqüenta-la “locais de uso comum não tarifados”, era nisso que estava pensando. Agora, de vez em quando, eu consigo ir ali e experimentar uma comida diferente; passar em uma loja de discos e com 7 dolares comprar um John Lennon Shaved Fish em vinil zero bala.

E daquelas primeiras impressões até aqui, não é menos espantoso do que antes a quantidade de drogados e moradores de rua. Eu vejo como um assunto muito complicado. Não consigo vislumbrar um palpite concreto. Qualquer opinião seria muito contemplativa. Esse assunto, e também a vida contemporânea dos descendentes das Primeiras Nações, é com certeza assunto grande e cabeludo demais para esse post que já tem quase mais palavra que bola do pele no fundo do gol.

Se você leu o texto inteiro até aqui o fim, comemore! Isso quer dizer que você está com muito tempo sobrando. Já eu, assim como quando tenho varios sonhos doidos, me sinto mais leve por ter escrito.

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2 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

2 Respostas para “Second Impressions ou Notas de Verão sobre Impressões de Inverno

  1. Everas

    Ehhh mano! Li até o final!
    Empirismo lógico ou emprirismo comum, é tudo positivismo meu, nem esquenta.
    Mas ai, então você quer uma Z/L ai em Vancouver?
    Everas

  2. Danilo Havana

    se liga que os manos falam “É QUENTE”,
    e os gambé falam “POSITIVO”!
    o positivismo é a colera dos deuses.
    e aqui, eu moro na Zona Leste.
    força

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