Gigantes do Atacama

Hoje sai de casa pensando que eu iria tirar férias; e como seria possível alguém tirar férias já estando de férias. Daí, pensei que na verdade mesmo estando em outro país, isso não poderia ser considerado férias, já que trabalho diariamente e tenho minhas obrigações a cumprir. Pensando assim, convenci a mim mesmo que os dias de folga que tirarei poderiam sim ser chamados de férias. Comecei então a pensar na rotina e nas férias. Enquanto pensava na rotina, em todos meus pequenos afazeres e hábitos que surgem sem que necessariamente eu queira, reparei que estava com uma camisa que comprei em uma viagem de férias. Na camisa, um desenho rupestre chamado “Gigantes do Atacama”. Gigantes esses, que por sinal eu não conheci porque cochilei na estrada e o cabeça do Micróbio não me acordou; assim como não o fez na passagem pela linha de capricórnio (parabéns!).

Também não é o caso de dizer que o fato de estar usando uma camisa do Chile, um dia após o resgate dos mineiros da mina San José e menos de uma semana depois do fim da greve de fome dos prisioneiros políticos Mapuches, tenha sido apenas uma coincidência, já que tendo apenas sempre 4 camisetas limpas, a cada manhã, a chance de uma camisa ser selecionada é de 25 %. De todas as formas foi sem querer que estava com ela.

Daí, depois da camisa, ao mesmo tempo em que carregava caixas de comida no restaurante mexicano onde só trabalha coreano mas a dona é chinesa, fui pensando nos mineiros, no Chile, nos índios e no presidente Chileno.

Cara, não dá para negar que foi muito doido o que aconteceu. Os caras terem vivido 70 dias a 700 metros de profundidade soterrados no deserto. Foi demais! Mas, demais também foi a cara de pau do presidente chileno em suas aparições regurgitando diante das câmeras aquele discurso decorado.

Foi uma grande façanha tê-los salvo e esses guerreiros devem mesmo ser tratados como grandes heróis. Já era fácil perceber isso antes mesmo de saber se estavam vivos ou não. No currículo de cada um que aparecia, novas histórias assustadoras vinham a público. Assistindo pela internet ao vivo o resgate, escutava o repórter falando: “o próximo a subir é Pablo Ramirez Hernandez, trabalha há 35 anos em minas e sobreviveu a 18 acidentes”. Cara, que isso!

O bilionário Sr. Piñera, do partido ultraconservador Renovación Nacional, uma espécie de Berlusconi chileno, há muito macumunado com a Família Pinochet, soube aproveitar muito bem o momento e levar a coisa a seu favor, passando por bom pai preocupado com seus filhos. E ao mesmo tempo em que o Chile assistia seu lindo presidente cantando o hino nacional, seus bravos índios Mapuches tentavam se reabilitar depois dos 90 dias sem comer.

Com os mineiros em pauta, os índios Mapuches foram mesmo esquecidos, assim como os motivos que levaram os mineiros a tal situação. No caso dos Mapuches, na eminência da morte e a pedido de seus familiares, que não os queriam ver mortos como viram muitos outros companheiros, decidiram encerrar a greve de fome, mantendo é claro o objetivo de continuar tentando dialogar com o governo afim de alcançar suas legítimas demandas. Já os mineiros, é muito bom ver que 33 puderam ser salvos, mas é triste lembrar que eles não representam nem 10% dos que morreram nos últimos anos em acidentes parecidos.

Terminada a novela na mina, as condições para os mineiros chilenos continuarão sendo as mesmas e muitos continuarão morrendo, a terra no Chile continuará na mão de grandes empresas, os índios Mapuches continuarão presos e sendo tratados como terroristas pelo governo, e o grande empresário e presidente Piñera continuará jogando golfe as terças-feiras em um clubinho particular para investidores da Axxon.

(Passou também quase que despercebido a escolha da Colômbia como membro temporário do conselho de segurança da ONU. Bem a Colômbia não? Que coisa! Até parece que os EUA gostaram).

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2 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

2 Respostas para “Gigantes do Atacama

  1. A culpa é minha docê ser duminhoco, né? A-hãããmmm.

    Por coincidência, usei a camisa do Chile ontem, mas não fiz a associação com os mineiros.

    Achei um espetáculo midiático, mais um, com o presidente fazendo o quê ali mesmo?

    São construto midiático baseado em um fato estes exploradores da caverna – como o encanador Mário, diferente da Dilma, que de fato não tem nada. O Serra, pelo menos, já conhecemos bem ele sem maquiagem pra esconder olheiras na TV.

  2. Everas

    Como Paulo Arantes diz, o Chile foi a primeira experiência neoliberal, mesmo antes dos EUA e Inglaterra. Portanto não é surpresa alguma um ultraconservador na presidência. Em maio desse ano o Chile foi aceito no clubinho dos mais ricos – OCDE, que beleza.

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