Enduro

A minha carreira profissional em terras polares ia de vento em popa. Seguia como um caminhão pesado na descida; tava que era uma beleza.

No estádio, comecei como pegador de caixas no freezer, passei a montador de sanduíches de porco, e por fim, já havia me consolidado como o fritador de batatas substituto. Pode parecer pouco, mas o fritador de batatas é o Cara dentro do container. É ele, por exemplo, que grita lá da ponta: – “Juares, mais 4 caixas de fritas!”.  Na burritaria que eu havia começado como fazedor de burritos, recebi duas promoções e com isso já ocupava o cargo de motorista, levando os ingredientes de loja em loja passeando pra lá e pra cá pela cidade. Com a música, onde tudo começou, já nem me lembro mais dos tempos da churrascaria fubazenta, já que depois dela vieram vários festivais, novas gigs e novas bandas, quase sempre em lugares de muito mais chamego.

Ia que era uma beleza. Mas no meio da descida passou uma vaca, ou melhor, um boi, ou melhor ainda, um dragão chinês montado por um mariachi.

Lembra daquele pobre coitado chinesinho, a quem eu havia registrado grande consideração neste blog, aquele que fizeram da vida dele um inferno, aquele que pagavam pouco, que falavam mal pelas costas, aquele que ficou 5 anos trabalhando como motorista e um certo dia quebrou tudo, xingou a gerente e saiu fazendo bundalelê pra todo mundo?

Então. O cara parece que cansou das jogatinas em cassinos, como prometera ao sair, e pediu para voltar a ser o motorista; como era amigo da dona e ela deve ter uns 10 mil pé-atrás com ele, o cara foi readmitido enquanto eu passeava alegremente por ai nessas duas semanas de férias. O processo de despromoção teria sido menos sujo se os caras tivessem pelo menos avisado antes.  Mas todo o tramite aconteceu sorrateiramente sem minha presença.

Na verdade eu não sei como pessoas tão integras puderam fazer algo assim. Não é porque eles pagam os funcionários por baixo dos panos sem recolher os impostos, não pagam hora extra, não permitem intervalos para descanso e lanche mesmo quando a jornada passa de 12 horas por dia, não pagam seus primeiros dias de trabalho alegando ser seu treinamento, contratam pessoas ilegais (sem visto) para trabalhar, instalam maquinas que não funcionam para enganar os fiscais, te pagam para atender e te obrigam a limpar, cozinhar e ficar no caixa, e, não lavam o alface, que eu imaginava que algo assim pudesse me acontecer.

Apesar de bagunçar bastante os planos, não deixou de ser uma experiência bacana. Ser despromovido não é para qualquer um. Sem muito lugar para me acomodar, fui mandado a burritar em outra loja, que não a supervisionada pela Encarregada Coração de Pedra.

Como bem disse a rapariga, a vida em Vancouver parece o joguinho do Enduro: chove, faz frio, neva, esquenta 30 graus, acha emprego, perde o emprego, é promovido, depois despromovido, tem dinheiro, não tem dinheiro, viaja bastante, depois não sai de casa, e ai vai até zerar ou dar game over.

O trabalho do estádio acabou. O Bc Lions, que apesar ter avançado no campeonato está mais para BC Chaninhos, não joga mais em casa nessa parte temporada. Além de fazer uma grana extra, foi das experiências mais bacanas. A lembrar de todo o processo seletivo para a vaga, mas também foi o único lugar em que trabalhei quase que exclusivamente com Canadenses. E dos que eu tive a oportunidade de trabalhar, a maioria eram jovens, todos estudavam business e eram bem moles na labuta. Trabalhavam como um filho faz favor ao pai. O materialismo histórico parece pesar, e não acostumados às mesmas intempéries que, por exemplo, nós brasileiros, eram ruins a lidar com imprevistos.

Talvez tenha sido a música a única que realmente não tenha sofrido algum grande revés até o momento. Apesar do cancelamento de um de nossos “contratos” semanais, a cada mês tenho mais shows e convites de pessoas diferentes para tocar.

A volta das férias foi assim; digamos, bem tumultuada. Além da inédita despromoção, tive o visto negado e por dois dias que a coisa não embanana de vez e eu volto pra casa mais cedo.

Até por isso, em homenagens aos amigos que aqui viveram, mas que já estão de volta aos braços fraternos de sua nação tupiniquim, que dedico esse rebuscado poema:

A vida aqui é doce,
mas as vezes também é dura.
Na padaria não tem pindura
e quem se lasca é ocê

Nem tudo aqui é tão caro,
contudo tudo é dólar.
Aos amigos que ficaru,
home que é home num chora

Pra vida fica uma lição:
a rotina nas terras do norte
também pode ser de cão.
A única coisa que sei é qui:
se não fosse o Fica Frills
já tinha voltado pro Brasil.

Obs: desculpem a monotemática trabalhista, mas pra você que dorme 8h por dia, das horas que te restam, o trabalho consumirá no mínimo metade de sua vida e acaba sendo inevitável não falar sobre, principalmente em um ano de tantas chicotadas.

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7 Comentários

Arquivado em de tudo um pouco

7 Respostas para “Enduro

  1. O Canada! Our home and native land!
    True patriot love in all thy sons command.
    With glowing hearts we see thee rise,
    The True North strong and free!
    From far and wide, O Canada,
    We stand on guard for thee.
    God keep our land glorious and free!
    O Canada, we stand on guard for thee.
    O Canada, we stand on guard for thee!

    Entendeu?! Não tem para estrangeiro, sem -terra e muito menos ateu. Claro no contrato desde o inicio. Quem inventa moda somos nos (vc eu diria).

    • Danilo Havana

      eu gosto do Canada.
      e a condiçao de estrangeiro nao muda e nem da para querer que mude.
      é o pais dos caras.
      eu retrato minhas reflexoes respaudado em minhas experiencias não para dizer que aqui é ruim, e nem tb mostrar que eu nao goste.
      é um lugar legal.
      sem mito. sem lenda.
      ademas, quando se trata de trabalho, nunca é doce.

      • É quente. Na rua também não tá fácil, morô truta?. Uns juntando inimigo, outros juntando dinheiro, sempre tem um pra testar sua fé, mas tá ligado sempre tem um corre a mais pra fazer.

        PS: Ceis tão discutindo a relação aqui?

  2. Giovanna

    Aqui nos US não é muito diferente. Eu consigo me manter na minha área por um fio. Sou praticamente uma voluntária. Não é fácil não!

    Sinto saudades de ser alguém e de ter um CV relevante…

  3. Giovanna

    Ah, mas não sintam pena de mim pois eu sabia que isso iria acontecer! 🙂

    • Danilo Havana

      imagina Giovanna.
      fora aquela galera que viaja nas custas do pai, a grande maioria por sinal, o resto rala bastante pra poder viver a experiencia de morar em outro pais.
      tudo é sempre mais dificil.
      força

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