O Spray e o Ovo

Depois da despromoção, já contada aqui, ocorrida no final de outubro, resolvi buscar algum outro trabalho onde eu pudesse fazer mais horas do que estavam me dando na burritaria. E faltando pouco tempo para vazar, já não seria possível galgar grandes trabalhos. Não só pelo tanto de horas que estavam me dando, mas também aceitei a idéia de que eles não eram gente tão bacana assim e resolvi achar outra fonte pagadora para que não ficasse muito a mercês dos mesmos vermes.

A primeira coisa que você faz quando quer arrumar um emprego qualquer é falar com seus amigos pra ver se alguém sabe de alguma coisa. E dessa vez até que foi rápido. De cara, com primeiro amigo que falei, ele me disse que precisavam de lavadores de louça no restaurante onde ele trabalhava. O idioma já não é um empecilho tão grande, mas conciliar dois ou três trabalhos exige um grande malabarismo de horários. Além do mais, era um restaurante francês e eu imaginei que teria que desenrolar no abajour bonjour monsieur (o que depois também mostrou-se falso). Mesmo assim, por que não? Poderia ser uma experiência diferente.

Mas bem, ele entregou meu curriculum ao gerente da seção responsável, o cara marcou um dia para eu ir até lá, trocamos uma idéia e já foi já.  Gerente bem gente fina por sinal – ele é sempre o primeiro a começar as guerras com resto de comida. Na entrevista, fora o básico, ele só fez questão de frisar duas coisas: eles não gostavam de gente mal humorada, e, o mais importante, o Spray nunca pode vencer o Ovo.

Na hora, interessado em pegar o trabalho, eu nem dei muita bola. Na verdade não entendi muito o porque dele falando aquilo e mas larguei mão.

O trabalho consiste basicamente em lavar louças. Tem outras tarefas também como tirar o lixo, trocar os sacos com panos e roupas sujas, carregar uns containeres, abrir umas latas, …,  mas basicamente é lavar louças. Em um restaurante grande, lavar louças não é muito parecido de como fazemos em nossas casas. Os garçons e cozinheiros despejam um caminhão de panelas, pratos, talheres, copos e etcéteras por segundo, e você tem que tirar o grosso e organizar a louça para ela poder ser colocada na maquila de lavar – pra quem nunca viu, uma maquila de lavar tamanho médio é um quadrado metálico de mais ou menos 60 cm X 60 cm que só precisa ser aberta e fechada para que funcione, ou levantada e abaixada se preferir.

Iniciar uma carreia do zero outra vez, se fosse esse o caso, dá uma certa preguiça. Como sou o dishwasher (como misteriosamente somos chamados aqui) mais novo da equipe, estou em último na hierarquia e por isso nunca sou chamado para cortar os legumes. Trabalham de 2 a 4 lavadores ao mesmo tempo, dependendo do movimento do dia. O restaurante também nem é tão grande, mas a quantidade de louça e lixo é assustadora.

É claro que, como todo bom Homo sapiens vagabondales, eu queria um trabalho sussa e que pagasse bem, mas embora seja bem pesado trabalhar 9, 10, 11 horas dentro de uma cozinha e eu saiba que é por um período muito curto da vida, o astral da galera ajuda e o trabalho acaba sendo legal. A comida também é boa e não tem miséria; comemos de tudo e bastante. O trabalho não parece muito real e a sensação que eu tenho é de estar em um filme, principalmente vestindo aquelas roupas, luvas e tal, e repetindo o mesmo movimento centenas de vezes ao dia.

Diferente do trabalho temporário no estádio, eu pareço estar convivendo com trabalhadores canadenses mais comprometidos, mesmo que isso tenha a ver com o contexto. Os cozinheiros são em sua maioria canadenses, mas também tem uns japoneses, uns coreanos, claro!, e uns filipinos. Já a equipe dishwasher, fora um chinês e eu, o resto é todo da França mesmo. Resumindo, o restaurante francês não tem nenhum francês, com exceção de um dos chefes da cozinha e os dishwashers. Me parece uma maneira coerente de manter a boa qualidade do serviço, o cara que controla o tanto de sal na tua comida e os caras que lavam os teus pratos são franceses, com exceção da conhecida aliança chino-brasileira.

Depois de três semanas trabalhando lá, eu já sei o porquê de,  assim como os escoteirinhos possuem o deles, os dishwashers também possuirem seu lema: “O Spray nunca pode vencer o Ovo” (The Spray never beats the egg). A gema do ovo mole, depois de seca no prato, é uma das coisas mais lazarentas de se tirar; nem mesmo botando o spray de água fervendo a toda força mirado no prato, molhando a cozinha toda, você mesmo e seus companheiros, o ovo não sai. Tem que parar e esfregar prato por prato na mão. A relação que o dishwasher, em uso de seu spray, tem com a gema do ovo seca no prato é algo parecido com o respeito que dois grandes adversários tem um pelo outro.

Hoje, existem muitas coisas que eu gostaria de dizer a você, cliente de restaurante. Daria uma grande lista de conduta do usuário. Eu grifaria como os mais importantes: primeiro, se você chega a um restaurante e o cara fala pra você que a cozinha já fechou, larga a mão de ser peida na farofa e atrapalhar a vida dos outros, e vê se, por favor, não insiste, senão os dishwasher irão para casa ainda mais tarde; e segundo, se você gosta de ovo com a gema mole, que por sinal é uma delicia, vê se come a porcaria do ovo ao invés de ficar brincando com a comida espalhando no prato!



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7 Comentários

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7 Respostas para “O Spray e o Ovo

  1. Embaúba

    Putz…daria tudo pra ver essas cenas Lhama…rsos…
    Vc me faz rir até distante… Não é um rir da “desgraça” alheia…rsos….mas como te conheço um tanto bom 🙂 acho que daria boas risadas viu… Imagina vc na cena do ovo no prato….putz… engraçado. No entanto, fique tranquilo, se eu fosse cliente desse restaurante pouparia seu trabalho…não gosto de ovos desse jeito, isso só foi possível nos tempos de diversão no quintal da dona Fofinha, quando o ovo já vinha até aquecido do galinheiro…rsos…afff…credo… Outros tempos…mas bons tempos né Dan!?!?
    Bjos

  2. Everas

    E ai meu! Virou comediante. O leslie nielsen morreu, você pode pegar a vaga dele no próximo corra que a policia vem ai.
    Abraço

    • Danilo Havana

      e ai, tá vivo é?
      e não sou eu que não sou sério, é a vida ….

    • David

      Tá loco bicho, tem q ter coragem, hein? A gente se acostuma com lava-louça em casa, dai chega e tem fazer esse tipo de serviço, imagina se chega a furar a luva… mas me parece q costumam pagar ‘bem’ por esses serviços…

  3. Alex

    Eu adoro ovo com gema mole. Parabéns pelo novo emprego.
    Força !

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